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O que estou fazendo com a minha vida?


No mundo multimídia, dos diálogos com limitação de caracteres, são ainda menos discutidas aquelas dúvidas que chamávamos de existenciais.

No meio de uma multidão cotidiana, seja no metrô lotado, ou na praça de alimentação de um shopping na hora do almoço, cada ser humano acredita que suas incertezas são exclusivas, quase incompreensíveis aos demais.

Quão surpreso fica aquele que acabou de ascender profissionalmente, ainda jovem, ao descobrir que o sentimento de ser uma fraude não é unicamente seu?
Não percebe a natureza genuinamente humana por traz dessa percepção.

Uma amiga, que não era propriamente presente, ao invés de "tudo bem com você?", frequentemente me perguntava "está feliz?".
Não só perguntava, como prestava atenção na resposta.
Discutimos umas centenas de vezes o que era felicidade, a natureza da pergunta, e os acontecimentos da vida.

Hoje sobrou a mensageria instantânea.

- 2019 -

Amar não é...

Há uma não tão sutil diferença no "querer ver feliz", no "querer fazer feliz" e no "querer ser feliz com".
No entanto, os três são por vezes proferidos como sinônimos de amor.

O primeiro é uma torcida, um querer bem sem necessidade de ação do observador.
É como em regra geral se "ama" a humanidade ou um primo distante.
Se surgem intempéries para o "amado", basta continuar a torcida.

O segundo carece de respeito à individualidade do outro.
É um saber aquilo que é melhor para outrem e tentar impô-lo.
Diria que muitos pais e mães "amam" os filhos assim.
Se surgem intempéries para o "amado", luta-se.

O terceiro olha para si.
Quer o torcedor sempre feliz, além de um observado que lhe agrade os olhos com sorrisos.
Em relacionamentos modernos se "ama" assim.
Se surgem intempéries para a concretização das felicidades, muda-se.

Teriam relação o amor e a felicidade?

- 2020 -

Entre

Entre a sensação de ser injustiçado
e a convicção de ser uma fraude,

Entre a dor da existência
e a arrepsia diante do nada,

Entre a completa estabilidade
e a insegurança sobre a garantia da própria subsistência,

Há uma taça esvaziada,

Há uma dezena de sentidos apreciando cada aspecto da realidade,

Há uma tentativa de identificar as simetrias do mundo,

Há uma borboleta que alça voo rumo ao esôfago.


- 2019 -
A vida é frágil.
Não por ser fácil morrer. Não o é.

Mas cada um de seus aspectos está num delicado equilíbrio.

A busca de estabilidade e a necessidade de novidade.
Como uma bomba sódio potássio.

Uma frase mal colocada, que arruína a esperança.
Tal qual a da criança que numa tarde ouve sobre a Terra ser engolida pelo Sol em bilhões de anos.

A  mesma chuva que estraga as férias
e que ilha um possível casal, providencialmente.

A mensagem que demora a ser respondida,
em meio ao curso natural da entropia.

Como laranja no azul

Depois do dever de automotivação, veio o dever de positividade.
"Se não deu certo é porque ainda não terminou" - eles diziam.
"Pense em coisas positivas que você as atrairá" - eles pregavam.

Mas se tratava de um anarquista. Era feliz em seu pequeno fracasso pessoal.
Bastavam seus três poemas numa folha de papel, esquecidos.

Seus heróis não acordavam com um sorriso no rosto.
Se reservavam o direito de não dar bom dia.
De, num fim de semana qualquer, serem encontrados enforcados ao lado de um bilhete, em um último escárnio.

Uns sugeriram fazer análise. Mais recentemente, passaram a recomendar um coach para a vida.
A maioria apenas mantinha a distância de segurança.

Mas preferiu fazer do choro no quarto escuro um ato revolucionário.
Sabia que o autocentramento na autofelicidade era a prisão na planificação do sentir.

Apreciar a melancolia dos acordes menores, com a intensidade do calor que esturrica a terra.
Para perceber, como laranja no azul, o sorriso mais visceral.

- 2019 -

Dois beijos.

De quantos romances platonizados ou aventuras amorosas se lembraria com euforia aos 60 anos?

Quantos momentos havia protagonizado que mereceriam o gasto de energia elétrica para serem imortalizados num recôndito conjunto de bits acessíveis pela internet?

Às conquistas, com o tempo se acostumava.
As intensas paixões, transformavam-se.

Tudo que durava o bastante se tornava indistinguível da interferência de fundo do hábito.

Dois beijos.
Uma cesta.
Um nome numa lista.
Um pôr do sol.
Um telefonema.
Um banho de rio.
Duas correspondências.
Três conclusões de jogos de vido-game.
Oito shows.
Duas dúzias de cheiros e sabores.
Um blefe e um river.
Um momento com os braços abertos debaixo da chuva.

Sem ordem.

É disso que se lembrava sem esforço, sem referência.
É disso que se queria lembrar.

Nada poderia ser tão duradouro quanto um grande prazer efêmero.

- 2018 -


"Amor é uma palavra, o que importa é a conexão que esta palavra implica"

O relógio marca números, não o tempo;
como o odômetro, que não marca distâncias.

Assim como a pintura,
que continua a não ser um cachimbo,
cada marcação conta apenas o desenrolar de uma relação.

A variação da voltagem da corrente elétrica
e o número de vezes da sua ocorrência.
O giro do eixo e o passar do chão.

E os valores que os números pretendem representar,
que de absolutos nada têm,
dependem da gravidade e da aceleração.
Sobretudo, relativos são.

As idades não marcam a vida,
As flores em ocasiões especiais não marcam a quantidade de atenção.

- 2019 -

Ser capaz de ver as nuances,
sem necessariamente acertar o tom.

Ter consciência do quanto não sabe,
sem conseguir delimitar o que precisa aprender.

Eis a sina:
ser suficientemente inteligente
para saber o quão genial não se é.

- 2016 -
Muita informação e pouco tempo para interpretação, os males da modernidade são.

“Preocupou-se em saber sobre cada árvore, mas não percebeu que formavam uma floresta”.




Coletânea adaptada de coisas que se ouve por aí.
Autoria desconhecida.

Unicidade

Sou único, disso não me precisa falar.
Mal sabe que todos somos únicos,
numa mistura de genes e experiências
individualizadoras e diferenciadoras.

Se todos são únicos,
isso não me torna igual,
mas me torna comum.
Comum na unicidade.

Sou mais um único.
Nem mais, nem menos único.

E o pior: se somos únicos,
não podemos, nem mesmo, nos comparar.
Cada um não pode ser nem melhor, nem pior,
pois, qualquer julgamento partiria de um ser único.

Ou a vida de cada um vale infinitamente,
enquanto única,
ou nenhuma vale nada.

Ou somos, todos, ou ninguém é.



- Nov 2006 -